14.12.07

A ascenção do gueto: padronização, progressismo ou neo-discriminação?

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Ao ler o artigo intitulado ADJECTIVO NÃO PODE SER SUBSTANTIVO, fui levada a pensar na evolução recente em termos sociais e culturais que em muito mudou a forma de encarar e viver a homossexualidade. Apesar de considerar que muito ainda há a fazer em termos da mudança de atitudes comportamentos e mentalidades, temos que reconhecer que nos últimos 10/15 anos assistimos a mudanças que não preconizáramos poderem ocorrer num tão curto período. No entanto, apesar da sua natureza positiva, nem sempre a sua magnitude é elevada.

Temos vindo a assistir a uma grande evolução naquilo a que poderemos designar como os mercados para a população homossexual. E refiro mercados porque na realidade se trata de um mercado que se começou a segmentar em torno de identidades colectivas artificiais, extraídas daquilo que é ser homossexual. Esta segmentação, reproduz e difunde etiquetas ou rótulos ligados à sexualidade, acabando por criar ou patrocinar a criação de múltiplas identidades dentro de um grupo que já à partida é restrito ou restringido em função de comportamentos sexuais, de sexualidades..

Indivíduos cuja orientação sexual não coincide com a orientação dominante, que até há bem pouco tempo (e ainda agora em muitos casos) se isolavam e guardavam para si ou para grupos muito restritos a revelação do seu verdadeiro eu, começaram a ver-se espelhados em modelos socialmente estabelecidos e tacitamente (des)aprovados por via do primado do politicamente correcto ou dos proveitos desejados.

É a passagem da sexualidade do domínio estritamente privado para um domínio mais vasto. Emergem novos interesses e a homossexualidade torna-se discutível e inteligível no plano económico e politico, deixando o interesse por ela de ser do domínio quase exclusivo das ciências sociais ou do comportamento.

Podemos observar o crescimento de várias indústrias e do comércio em torno de segmentos do mercado dito homossexual. Proliferam agencias de viagens, bares, discotecas, filmes e séries, habitação, imprensa, arte, etc.. A industria do lazer é talvez aquela que neste domínio mais tem crescido e mais se tem diversificado.

A imagem transmitida pelo marketing ligado a esses produtos ou serviços, é uma imagem de liberdade e poder, bem distante dos antigos “antros”, guetos de circunscrição, que até quase ao final dos anos 80 constituíam os espaços de catarse do grupo (falo obviamente dos bares e discotecas existentes até então). Estes novos produtos e a forma como são apresentados trazem consigo um aroma de conquista e de liberdade. Parece-nos que se personalizam produtos e serviços pensando mesmo mesmo em nós. Seremos então, um grupo importante do ponto de vista económico e politico e que existe de facto enquanto grupo, a partir do momento em que é reconhecido como tal.

Na minha opinião trata-se de não de uma conquista mas mais de uma condescendência da era do politicamente correcto. É a passagem do anterior gueto (verdadeiro) onde os que lá estão, mesmo querendo, de lá não podem sair, para o gueto voluntário onde quem lá está, aí quer permanecer. Mantêm-se os guetos enquanto entidades de isolamento espacial e social mas transforma-se a vivência de lá permanecer. Do imposto para o voluntário em nome de uma identidade económica e politicamente construída. Em nome de identidades inexistentes que aqueles que pertencem à população alvo de modo comodista aceitam integrar.
Pessoalmente, detesto guetos. Detesto ser confinada a espaços (sejam eles reais ou conceptuais) que não escolhi realmente e com os quais só me identifico secundariamente e por pressão (por oposição ou por escolha forçada). Ao aderir a este tipo de acções económico-politicas, os visados auto excluem-se, aderem a um novo tipo de discriminação.

A verdadeira aceitação da diferença, não se traduz na criação de uma estrutura categorial em função de preferências ou orientações sexuais. A verdadeira aceitação da diferença, de múltiplas sexualidades, só acontecerá quando transcender o gueto, quando tal como é referido no artigo que citei, a diferentes sexualidades forem encaradas como aquilo que são realmente: como adjectivos, não como substantivos. Significando isso que somos pessoas com comportamentos homossexuais, bissexuais ou heterossexuais.

Quando determinados grupos, constituídos em função de uma artificialidade (no que respeita à identidade) , apresentam comportamentos de visam o isolamento e a manutenção do grupo, estão a conferir àqueles que os visaram enquanto nicho de mercado, um elevado sucesso na sua ambição e sectarismo.

Por mim, mais uma vez afirmo que o que pretendo é a indiferença, essa sim verdadeira consequência da aceitação da diferença. Não pretendo de forma alguma um espaço que me seja destinado, onde possa sentir-me bem, escondida ou confinada em função de vontades que me ultrapassam.
Sei que como sempre, me perdi um pouco no discurso e que não referi muitas das coisas que considerava importantes quando comecei a escrever. Provavelmente bastar-me-ia ter dito: Os novos espaços de liberdade criados para grupos específicos em função da sua sexualidade, não espaços de restrição. São guetos modernos aos quais se adere voluntária e voluntariosamente sob uma imensa ilusão de conquista e liberdade. Um gueto nunca é um espaço de liberdade.

17 comentários:

AR disse...

A adolescência só passou a existir porque foi/é um alvo económico, hoje é nos indiferente, só mais uma etapa no precurso do crescimento.

Pergunto-me se não será só mais um passo na conquista da indiferença, este estado que descreve e que tanto se alterou em 15 anos?

Pergunto-me também se algum gay vive exclusivamente nos guetos forçado ou voluntário?

O nosso mundo é hetero (a minha familia é hetero, os meus amigos hetero, colegas hetro, a Sr.ª da pastelaria hetero, a roupa que compro definida em função do género, o deterente que uso é publicitado com determinates familiares hetero) por isso, às vezes quero estar no mundo homo, especialmente nas minhas horas de lazer. Dedico talvez, como qualquer gay, 15% da minha semana à vida gay, gueto voluntário/forçado no qual me sinto bem, tal como, com os 85% do tempo passado no mundo hetero.

E agradeço, em qualquer dos mundos, que as pessoas sejam politicamente correctas e não me insultem por uma coisa que eu não controlo e pela qual não me sinto responsável. Agradeço a visibilidade que conduza ao politicamente correcto, e que um dia seja de indiferença. Se for pelo caminho do dinheiro, pois que seja, desde que seja um caminho. Dúvido das coisas que encerram em si a solução. Sou dos caminhos para a solução, para que cada um trilhe o que mais lhe aprover.

Os guetos voluntários que me consomem 15% da vida adulta, são espaços de libertação, não de liberdade, porque essa ainda não a tenho, nem a terei sem a indiferença. Mas os espaços de libertação permitem-me lutar todos os dias pela liberdade. Sem eles quebraria, sem eles seria 100% difirente entre diferentes, assim, em 15% do tempo sou diferente entre iguais...

(Post extremamente bem escrito, como sempre aliás :)

mystar disse...

“São guetos modernos aos quais se adere voluntária e voluntariosamente sob uma imensa ilusão de conquista e liberdade. Um gueto nunca é um espaço de liberdade.”
Concordo quando refere que gueto nunca é um espaço de liberdade, mas é um espaço aonde nos sentimos à vontade, não?
Sinceramente não sou a pessoa ideal para opinar, pois estou muito recentemente no mundo homo, bem no meu canto a viver o meu amor e esperando o respeito dos dois mundos.
Excelente post !!!!

Cosmopolita disse...

Acho muito interessante este teu post. Em termos de análise até estou de acordo contigo, em relação às conclusões nem tanto. E isso porque acho que faz falta aqui uma análise sob um prisma sociológico e psicológico mais vasto.

É um facto que as minorias, quaisquer que elas sejam (e não são só relativas à orientação sexual, mas à raça, ao sexo, à identificação política, social ou ideológica, à expatriação, à idade, etc) se sentem muito mais à vontade quando confinados voluntariamente a espaços de artificial e ilusória liberdade e poder. São elas próprias muitas vezes que, de forma sectária, discricionária e reaccionária, em nome do espírito de grupo/guetto, impedem a abertura de fronteiras e se auto-excluem.

Para mim isto é facilmente explicável através até da física :). Quando se exerce uma força sobre um corpo, este exerce uma força igual e de sentido contrário. Ou seja, a toda a acção, corresponde uma reacção igual e de sentido contrário.

Como disse, isto está longe de se aplicar somente aos casos de orientação sexual. Na África do Sul, o apparteid gerou um racismo tremendo por parte dos chamados "coloured", que não é em nada menos violento ou radical do que foi o dos brancos.

Em países como a Alemanha, Bélgica e muitos outros, a integração, o reconhecimento à igualdade por parte dos nacionais originais desses países é praticamente impossível.

Na totalidade ou quase das empresas portuguesas estatais ou privadas, não há mulheres no Conselho de Administração nem em cargos de chefia mais elevados. É o clube do Bolinha do "menina não entra".

Em termos de identificação política ou ideológica as pessoas quase têm alergia em se dar com outros cidadãos de partidos ou ideologias muito diferentes.

Para além disso hás-de reparar que os seres humanos adoram identificar-se com grupos. No futebol com este ou aquele clube. No exército com esta ou aquela arma. Nas universidades com esta ou aquela faculdade. Com tipos de clubes, de desportos, etc. Adoram usar elementos identificativos dos seus grupos.

Também estou absolutamente de acordo com a AR. Desde que certos caminhos conduzam à integração total e consequentemente à indiferença, representando por isso uma solução ainda que parcial, um passo necessário para atingir o objectivo final proposto, estes podem e devem ser adoptados.

Dou-te por exemplo a questão das quotas das mulheres como uma solução proposta para se atingir finalmente a igualdade do género. Perguntas-me se acho isso correcto. Acho, porque até agora tudo o que foi feito redundou em fracasso. Podes dizer que a escolha nunca deveria ser feita em função do sexo da pessoa. Pois não! As pessoas devem ser escolhidas em função das suas competências e não do sexo, orientação sexual, cor, nacionalidade, partido político ou orientação ideológica, etc. Mas, quanto mais não seja, como medida provisória, como um dos caminhos necessários para se atingir a igualdade, seria necessário, no meu entender, que essa medida fosse aplicada.

Por estas razões todas acho que esta frase da AR explica muito bem o que penso "Os guetos voluntários que me consomem 15% da vida adulta, são espaços de libertação, não de liberdade, porque essa ainda não a tenho, nem a terei sem a indiferença. Mas os espaços de libertação permitem-me lutar todos os dias pela liberdade".

Eu, pessoalmente, tenho também horror a guettos, a grupos, e a qualquer outra forma fechada de convivência. E tenho-a desde que me conheço. Gosto dos seres humanos, das pessoas e compreendo a tua repulsa em aceitar a "manipulação" feita pelo politica ou economicamente correcto, mas pode ser uma parte da solução.

Ferónica disse...

AR



Fiz alusão a uma realidade que não é ainda a nossa, caminhamos nesse sentido mas estamos ainda longe dela. É verdade que nenhum homossexual vive exclusivamente em guetos (não sei se por opção se por impossibilidade de optar) mas é também verdade que estamos mais próximo disso do que aquilo que nos possa parecer. Se repararmos percebemos que do lazer e do turismo passamos à moda, desta à arte, à cultura e até mesmo à habitação. Se (onde isso é ou vier a ser possível) um homossexual trabalhar numa empresa para homossexuais que tem como publico alvo os homossexuais, se passar os seus tempos livres e férias em locais para homossexuais, se interessar só pela cultura e arte gay, se viver num condomínio fechado concebido para homossexuais, terá certamente a sua vida, vivida maioritariamente em guetos. Guetos esses que nestas situações não são espaços de liberdade, não serão libertadores e que poderão ser potencialmente alienantes.

Também não acho que este seja mais um passo na conquista da indiferença, porque a indiferença não se consegue acentuando ou valorizando as diferenças. Neste caso, é a valorização da diferença aquilo que está na base da criação de grupos e de nichos de mercado. Não é uma questão de identidade.

O nosso mundo não é hetero, assim como não é homo. O meu mundo é a penas isso, o meu mundo. Mas percebo o que queres dizer e dou-te razão. Vivemos num mundo onde a mentalidade dominante é marcada por uma cultura com valores morais/moralistas que lhe conferem um carácter sexuado e por isso o mundo é hetero. Eu, que sou um pouco autista (porque tenho a sorte de poder sê-lo), é que vivo 80% do tempo no meu mundinho assexuado, e , 20% no mundo dos outros que é maioritariamente hetero e minoritariamente homo.
É verdade, a família é hetero os amigos são hetero, a Sra da pastelaria é hetero, tal como muitos outros também o são. Nós, eu e a C. temos a sorte de ter famílias onde a orientação sexual não tem a menor relevância, temos por siso uma vida em família igual À e qualquer hetero. Os amigos são amigos, não importa qual a sua orientação sexual nem importa para eles qual a minha (se assim não fosse não seriam amigos), A Sra do café não sei o que pensa, nem sei se é realmente hetero. A minha relação com ela é puramente comercial e se possível cordial.
Não quero com este discurso parecer arrogante, quero sim dizer que tenho a vida muito facilitada no que toca a viver como quero no meu mundinho assexuado, esse facto não é mérito meu, é pura sorte.
Embora concorde com o carácter libertador e potencialmente transitório dos guetos voluntários, tenho a sorte de não necessitar deles e de a minha relação com eles ser cada vez mais de distanciamento. Contudo, entendo e aceito que muitas pessoas gostem, necessitem e se equilibrem adquirindo aquilo que foi pensado para eles com esse mesmo fim. Não critico isso, apenas penso que temos a obrigação de pensar no que significam os comportamentos de auto-exclusão para que por comodismo e segurança não possamos vir vitimas da nossa auto-exclusão. É preciso mais do que aceitar o que nos vendem ou que condescendem em dar-nos para conquistarmos a indiferença.
E pronto, vou parar que já me estou a borrecer a mim própria. Teria muito mais a dizer mas isto deveria ter sido só um comentário, não uma dissertação.
Obrigada pelo teu comentário, gostei muito (embora te possa parecer que não concordei com ele – isso só se deve ao meu mau feitio).
Um bom fim de semana (na rota dos guetos?)

Ferónica disse...

MYSTAR

Um gueto pode ser um espaço aonde nos sentimos à vontade, ou não. Os guetos de que falava no meu post são em regra geral (e por isso têm tanta aceitação) espaços com essas características, espaços onde quem tem de viver a maior parte do tempo reprimido, se sente à vontade.
Bem vinda (ao blog e ao mundo dos guetos).
obg

Cosmopolita disse...

Então e eu Ferónica? Não mereço resposta? ;)

Cosmopolita disse...

Estava a brincar contigo! Não levas a mal a minha criança infernal, pois não? :)

Ferónica disse...

Cosmopolita

Não valia a pena a birra. Eu só tinha feito um intervalo. Agora, por causa das invejas, levas uma resposta interminavel.

Vou tentar responder-te sem exceder 23.479 linhas. É um facto que tenho e melhorar a minha capacidade síntese. Vou tentando… quem sabe com o tempo…

Estamos de acordo quanto à problematização da questão e por isso centrar-me-ei nos pontos de discórdia. Aquilo a que chamas as conclusões e que são de facto mas são apenas as minhas conclusões e portanto mesmo que só para mim, são verdadeiras (desculpa, já me estava a perder em questões sem interesse, assim nem com 50.000 linhas lá vou).

Gosto da metáfora que usas para equiparar a acção–reacção da física aos movimentos de ajustamento social. Apenas me parece que nessa imagem, pelo menos para explicar a utilidade social dos guetos gay, a questão do equilíbrio de forças é complicada de sustentar. O todo é diferente da soma das partes. É o problema dos modelos metafóricos, nunca são perfeitos. Faz-me lembrar a utilização dos conceitos de Bertalanfy enunciados no âmbito da biologia e da comunicação , para explicar o que é uma organização. Será que precisamos de células, fluxos, informação, e sei lá mais o quê para explicar ou defender a faceta sistémica de uma organização? Será que não sabemos todos que uma organização não é mais do que uma entidade desorganizada que tentamos estruturar e modelizar em função do contexto de acção?
(Ai que já me estou de novo a perder, desculpa)

Os fenómenos que referes são fenómenos muito estudados pela psicologia social e pela sociologia (muito bem esplicados por Tafel num livrinho muito simples com um titulo do género: grupos e identidade social). São fenómenos comportamentais que visam a preservação da identidade através do grupo de pertença . São fenómenos que podemos classificar como comportamentos de preservação (evitar que outros – considerados desmerecedores - acedam ao grupo a que pertencemos) e comportamentos que visam a satisfação pessoal através da integração plena (fazer parte de, identificar-se com, ser aceite em ).
Para podermos enquadrar o tema nesta questão mais psicossociológica dos grupos, há que distinguir dois tipos de grupo: os maioritários e os minoritários. Nos grupos maioritários a preservação e o poder estão à partida garantidos pela própria natureza dos motivos que presidem à criação do grupo, enquanto que nos grupos minoritários, a função que garantem ao existir difere significativamente da dos primeiros. Nestes grupos, a integração dá-se pela identidade e pela exclusão social. Ao não se ser aceite nos grupos maioritários, torna-se necessário, encontrar um espaço de aceitação e resistência. Nestes grupos, mais do que conquistar poder, procura-se resistir e muitas vezes se exacerba o isolamento como forma de evitar conflitos, tensões ou mau-estar. É o estar bem entre iguais, o dispor de um espaço de afirmação da diferença mesmo que circunscrito a uma dimensão muito restrita e restringida. São estes os grupos que têm tudo para se constituir em guetos impostos ou voluntários.
Os grupos de homossexuais são obviamente grupos minoritários, que o marketing ao serviço da economia e da politica tem vindo a conseguir descristalizar, tornando guetos impostos em guetos voluntários, onde se ganha em liberdade mas se perde em identidade e espírito de grupo. É como se nestes novos guetos já não houvesse contra o que lutar por tudo estar como pretendemos desde que de lá não saiamos.

É verdade que as pessoas têm alergia à diferença, seja ela politica ou ideológica . Temos tendência para evitar diferenças para evitar incerteza e conflito porque não sabemos debater, só combater. É uma questão intrínseca e também cultural.

Eu não posso dizer que discorde em absoluto da tua opinião e da opinião da AR acerca das potencialidades dos guetos consentidos enquanto facilitadores do caminho a percorrer para atingir a indiferença. O que me parece é que será um caminho muito longo e tortuoso. Eu preferiria uma autoestrada. Só que essa autoestrada para a indiferença, ao contrario do caminho tortuoso, exige maior sentido de responsabildade, maior verticalidade e menos catarse. Mais conflito e menos gratificação através de insignificâncias consumistas. Estarmos preparados teremos capacidade para isso? Quereremos ser ainda mais neuróticos?

Para mim não é muito difícil adoptar esse tipo de comportamentos, coaduna-se com a minha faceta de bicho do mato e é perfeitamente compatível com o meu contexto de vida. É-me natural. É uma atitude tão natural como é para outros a de procurar equilíbrio através da pertença a guetos, não me tenho de forçar a isso, não preciso de me esforçar para o fazer. Não reclamo por isso para mim, nenhum mérito por não me incluir (muito)em gruetos voluntários..
Sei que na maior parte dos casos, fugir ao apelo de ser accionista do gueto, exigiria militância e não condeno nem critico quem não faça. Antes pelo contrário. Defendo que cada um deve viver a vida de modo a retirar dela a maior gratificação possível. Apenas me pareceu importante ou me apeteceu, salientar o lado subversivo da neo-discriminação, por esta se mascarar de aceitação e se insinuar através da oferta ilusória de espaços de realização. Não quero pertencer a rebanhos, sejam eles de ovelhas brancas, negras ou lilases. Mas isto sou eu, que tinha alma de anarquista (tinha, porque já a vendi há bastante tempo).

As quotas para a presença de mulheres nos cargos políticos, são uma coisa cuja função percebo mas que me parece tão aberrante quanto a obrigatoriedade de ajustar os resultados das avaliações de desempenho à curva normal. Porque não hão-de ser os cargos políticos cinzentos e entediantes um exclusivo dos homens? Por favor, não me obriguem a aceitar nenhum, eu não quero!
(Agora comecei a brincar com coisas sérias, isto vai de mal a pior)

Falando a sério (não à séria), percebo o objectivo, discordo do meio. Também a questão dos cargos de topo nas empresas é uma questão complicada que daria para mais 50.000 linhas, e em que concordo contigo.

Gostei muito do teu comentário mas vou terminar a resposta, acho que excedi o limite (da paciência de quanquer um que tente ler isto).

-pirata-vermelho- disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
-pirata-vermelho- disse...

MUITO BEM
(que vous êtes féronique!...)
A aceitação da diferença levaria à pouca pertinência de análises como esta, esmiuçadas, da explicação extensiva daquilo que deveria ser entendimento comum, sobretudo depois de um percurso que, na modernidade, se fez 'até quase ao final dos anos 80', como disse.

Ferónica disse...

Pirata
Aujourd'hui Catilina n'est pas ici.
Merci

-pirata-vermelho- disse...

Ah, ça ce voit...
na sua resposta anterior!
Merci aussi.

Special K disse...

Diria que � neo-discrimina�o. Os getos existem mas agora � politicamente correcto dizer que se � progressista e que se aceitam as diferen�as mas no fundo as pessoas continuam t�o homof�bicas como antes.
Bjs

Ferónica disse...

Special K
É em parte a ditadura do politicamente correcto. Tem expressão na institucinalização dos guetos e infelizmente em muitos outros aspectos da sociedade.
Obrigada pela visita.

Anonyma disse...

Vim visitar a casa, pela primeira vez, confesso...

Sim.
O elogio da indiferença. Sim.
De algo que é de tal forma assimilado que deixa de causar estranheza.
Estranheza seria então estranhar.
Mas, vendo bem...
Existem tantos tipos de segmentação de clientes por questões mercantilistas que esta é só mais uma...
Forma de padronizar, talvez.
Criação de "guetos"?
Talvez...
Mas nada que muitos de nós, humanidade, não tivessemos feito, antes, a nós próprios.
E decididamente concordo que "um gueto nunca é um espaço de liberdade".
Infelizmente este conceito é algo que a maioria das pessoas não atinge sequer...
Olhando a história e os homens...
A história repete-se...igual mas diferente.

Ferónica disse...

Anonyma
Obrigada pela visita.

Anónimo disse...

Querida Ferronica, vím dar uma passadinha rapida só para lhe visitar, e lhe dizer que vou lhe enviar um oí logo logo, assím que entrar de ferias de fím de ano, mas não posso deixar de dar minha opinião neste deu comentário, que como sempre sensato e inteligente,
concordo contigo quando diz:
Não pretendo de forma alguma um espaço que me seja destinado, onde possa sentir-me bem, escondida ou confinada em função de vontades que me ultrapassam.
nosso mundo não é hetero, assim como não é homo. O meu mundo é a penas isso, o meu mundo. Mas percebo o que queres dizer e dou-te razão. Vivemos num mundo onde a mentalidade dominante é marcada por uma cultura com valores morais/moralistas que lhe conferem um carácter sexuado e por isso o mundo é hetero. Eu, que sou um pouco autista (porque tenho a sorte de poder sê-lo), é que vivo 80% do tempo no meu mundinho assexuado, e , 20% no mundo dos outros que é maioritariamente hetero e minoritariamente homo.
ou seja, vc disse td com uma clareza e um discenimento unico,
que só posso assinar em baixo,,,
será que sou autista tambem? rsssss lol lol
beijos querida amiga
virtual olhar
amiga mineira