
O Sr Cardeal Saraiva Martins, num arroubo de solidariedade para com o seu superior hierárquico o Sr Cardeal patricarca D. Policarpo, renovou o conselho às jovens casadouras. Recomendou-lhes cautela com os casamentos com muçulmanos, e, aproveitou o facto de estar a falar de casamentos para se manifestar contra o casamento homossexual, contra a adopção por homossexuais. e, revelando a sua faceta de cientista ingénuo, afirmou que a homossexualidade não é normal.
Reproduzo aqui algumas das suas palavras: “Uma criança para ser formada, normalmente, precisa de um pai e de uma mãe, não de dois pais ou de duas mães. A homossexualidade não é normal, temos dizer.”
Embora profundamente contrariada tenho de dar alguma razão ao Sr Cardeal: De facto, a homossexualidade não é uma coisa normal. A maldita curva normal, resultante da descoberta de “regras” nas distribuições de frequências de variáveis, em populações com dimensão igual ou superior a 30, obriga-me a ter concordar com tal afirmação.
Se considerarmos a normalidade como sendo aquilo que ocorre com maior frequência na população e preferencialmente que se encontra presente em pelo menos 50% dos individuos que a compõem, temos de admitir que a homossexualidade não é uma coisa normal.
Não é normal no mesmo sentido em que não são normais tantas outras coisas na nossa sociedade e nas nossas existências. Não me querendo perder na escrita, volto à ideia que me fez iniciar a escrita, e numa espécie de acto de contrição, admito: Não sou normal! Não sou normal porque sou lésbica, não sou normal porque detesto futebol, não sou normal porque não acredito em deus, não sou normal porque nas minhas mãos, as falangetas dos indicadores apresentam algum desalinhamento em relação às respectivas falanginhas, não sou normal porque detesto bebidas alcoólicas, não sou normal porque detesto competir, não sou normal porque não consigo dormir se as portas e gavetas dos armários não estiverem todas (bem) fechadas, não sou normal por mais uma infinidade de motivos que seria fastidioso enumerar. Sou portanto, uma vítima da anormalidade múltipla. E o pior, e provavelmente mais uma das minhas idiossincráticas anormalidades, é que gosto. Gosto mesmo de ser anormal.
Estando agora esclarecido que para mim, ser ou ser-se anormal não é estigma nem insulto, que é algo que pode até ser lisonjeiro, é com esse estado de espírito que afirmo que muito embora seja orgulhosamente e multiplamente anormal , tendo em conta os critérios de normalidade e como referência o traço de anormalidade referido pelo Sr Cardeal - a homossexualidade - sou forçada a reconhecer quem há situações e pessoas que me batem aos pontos se seguirmos regras científicas, da matemática e da estatística, se considerarmos os princípios da famosa curva, na qual é o valor absoluto da porção do desvio em relação à norma/moda, que determina o grau de normalidade de cada individuo na característica em apreço.
Embora não conheça números oficiais no que se refere a estatísticas de orientação sexual, para não ser acusada de ser tendenciosa, considerarei que os homossexuais possam ser 5% da população (em vez dos 10% que habitualmente se referem). Ainda assim, tenho de dizer que o Sr Cardeal é mais anormal do que eu ou do que qualquer homossexual. A verdade é que para alem de ser cardeal, o que por si só o colocaria em situação de desvio extremo em relação à norma, é um dos dois cardeais portugueses com assento no Vaticano. Nem é preciso fazer contas: 2 em 10.000.000 dá-lhe um tal estatuto de anormal que dispensa quaisquer justificações. Dispensa-me até de dissecar ou analisar o conteúdo do seu discurso ou legitimidade das opiniões. Resta-me apenas, reconhecer-lhe a supremacia já que a verdade é que quando comparado com qualquer homossexual, o Sr Cardeal é sempre o mais anormal.
Por esta vitória inequívoca,os meus parabéns ao esquisito Sr Cardeal Saraiva Martins.
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